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O1| DIZ QUE DIZ

Diz quem sabe que o calor vai aumentar
diz quem pode que os impostos vão subir
e a gente a duvidar
se foi isto que Deus quis
ou é o refrão que ao chegar
diz que diz

Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
que o sol se apagou
o tempo mudou
o mundo acabou

Diz o povo que o futuro vai chegar
diz a sorte que o senão vem a seguir
e a gente a perguntar
se não dá pra ser feliz
ou é o refrão que ao chegar
pede bis

Fala quem fala e quem sempre falou
fala quem gosta de falar
e a vizinha que jamais se calou
diz que me viu a namorar
o dia voltou
o tempo passou
o mundo girou

   

02 | O QUE EU QUISER


quem acorda mais cedo vai vender saúde
e quem vai dormir cedo há-de crescer
o que será de mim que tenho por virtude
ver o sol avisar que vai nascer?
 

Não vou ouvir o que ninguém diz
e vou dormir quando eu quiser
 

grão a grão a galinha vai enchendo o papo
e eu fico a pensar o tempo inteiro
o que será de quem dá tudo por um trapo
ao chegarem os saldos de Janeiro?
 

Não vou seguir o que ninguém diz
e vou vestir o que eu quiser
 

ando sob a chuva porque quero andar
grito porque é moda proibir gritar
eu não sei... eu não sou... mas quando olho para mim
não cheguei... não vou... mas eu estou bem assim
 

se quem semeia ventos colhe tempestades
eu prefiro plantar mil furacões
 

não vou ligar ao que ninguém diz
e vou fazer o que eu quiser
o que eu quiser!
 

   

03 | LÀGRIMAS DE MADRID

una mañana más

una copa demás
una mirada más
un nuevo guión

más... um poquito más
un pensamiento más
la falta de compás
en una canción

con una sonrisa
te quiero
con una sonrisa
te dejo
y te robo la lágrima que intento callar
desde que te conoci

anoche me olvide
de aquello que empece
cuándo vi que no sé

a quien desear

poco a poco, Sali
de las calles de aqui
el sudor de Madri

tiene algo de mar...

pasé la noche entera
buscando el placer
pasé la noche entera
sin ti
pasé la vida entera
buscando el placer
y en la vida entera
llamé por ti
 

   

04 | DEBAIXO DA LÍNGUA

Eu às vezes não sei o que hei-de dizer
sou refém da palavra que me quer fugir
prendo o salto no verbo que deve ser
ou tropeço no nome a seguir

'stá debaixo da língua
brincando às 'scondidas com o coração
'stá debaixo da língua
parece que vai aparecer ou parece que não

e depois... e porém... e não sei... talvez
fico muda... repito tim-tim-por tim-tim
sinto o chão a tremer debaixo dos pés
e gaguejo ou qualquer coisa assim

'stá debaixo da língua
tão longe e quem sabe ao alcance da mão
'stá debaixo da língua
parece que já me lembrei ou parece que não

(desato a rir
não lembro de mais nada
eu desato a rir
o fio escapa à meada
eu desato a rir
e sim, e coisa e tal
eu sei lá)

sobe o pano, o actor quando cai em si
não se lembra da fala e não sabe o que é
fecha os olhos, diz “to be or not to be”
e o público aplaude de pé

'stá debaixo da língua
atada à cortina e ao projector
'stá debaixo da língua
talvez amanhã ela volte a ligar ao actor

   

05 | FITISERA DI KLARIDON

ó alma stranhu,ó flor di seu
ó vos dI nha boka
ligria e bu mon na di meu
na pás y na rávolta

ken ki ka ten dor
ken ki ri di tras
ken ki ri midjor
ka ta txora

odju kastánhu, odju di amor
se sinturinha sabi
róstu rodóndu, boka di flor
pa bo papiar doxi

kada un kon se mudjer
pa badja y canta
kada un kon otu korasón
lua xeia 'stá na seu
y mudjer ta bira
fitisera di klaridon

bejus, abrásus, rispirason
y un noti strélado
sonbras, ralánpus y kóre mon
na un korpu enkantádo

   

06 | CASA DAS HISTÓRIAS
para a Paula rego

Sei que existe um lugar
entre a noite e a luz
onde os meninos andam nus
dentro e fora do mar

Há um gato a tocar
há um cão que é mulher
e um corvo a querer voar
de um desenho qualquer

Uma casa no campo
uma voz, um centauro
e as asas de um anjo
que as bruxas quiseram tecer ao contrário

A rapariga tem
que engolir sem um ai
mais um pássaro que é também
o seu filho e o seu pai

No jardim de Crivelli
ao som de traviattas
os meninos perdidos
descansam no colo gentil dos piratas

Onde estás?
quem me faz
um feitiço?

O macaco vermelho
vai batendo à mulher
e eu vejo-me ao espelho
será que o macaco irá morrer velho?

   

07 | MAGIA IMAGINAÇÃO

Na  primeira manhã, quem vem lá?, quem tem medo?
Meu nome é Peter Pan, mas pra já  é segredo
A magia, a imaginação
Que eu trazia na minha mão
 

Na manhã a seguir, o lugar, o segundo
Sou de Alcácer-Quibir, sou do mar, sou do mundo
A magia, as voltas do Marão
Que eu trazia no meu refrão
 

Não sei pedir-te por favor
Só te sei falar
Com gestos e com palavrões
E seja lá isso o que for
Eu não vou ficar
A falar com os meus botões
 

A magia, a imaginação
Que eu trazia na minha mão
 

Na terceira manhã, o olhar, o chuveiro
Vou morder a maçã, vou estudar o teu cheiro
A magia, a força de Sansão
Que eu trazia no coração

 

   

08 | UM FINAL FELIZ

Ruas por andar | Poemas que não li
Não penso em acabar | Aqui

Tenho medo de ir | Não sei se sou capaz
E o tempo a sorrir | Por trás

Onde a porca torce o rabo
É na sorte e no azar
Porque eu sinto que me acabo
Quando estou a começar...

o meu jornal | O mundo por um triz
Mas vai ter um final | Feliz

A dor e o prazer
Um dia vão ter fim
Só que eu não vou viver
Assim

Onde a porca torce o rabo
É na sorte e no azar
Porque eu sinto que me acabo
Quando estou a começar

Aquém ou além | Aqui ou ali
Alguém ou ninguém | Por mim ou por ti
Da terra ou do mar | Ser um ou ser dois
Comer ou calar | Agora ou depois
 

   

09 | MUROS DE BERLIM

O meu nome foi pintado
Sobre os muros de Berlim
O nome que me foi dado
Foi grafittado em latim
E não foi apagado

Nunca vai ter fim
Está por todo o lado
Só não está em mim
 

Nas paredes de Lisboa
Nos telhados pendurado
Nas cavernas de Foz Côa
Nos grafittis do Chiado
Um nome de pessoa
Que ao ser recordado
Deixa a alma à-toa
Do seu próprio fado


Talvez a gente acredite

Que o muro foi derrubado
A alma é um grafitti
Nas nossas mãos desenhado
O sonho é que permite
Que um muro caiado
Tenha por limite
O céu grafittado
 

   

10 | É UM DIA SIM É UM DIA NÃO

E aí? / O avião abranda
A saudade voa / O medo ciranda
Sou uma pessoa /Sul-americana
Bom dia, Lisboa / Meu nome é Luanda

Tudo igual / O chôpe na pressão
A imperial / Arroz e feijão
Brasil, Portugal / A mesma nação
O Senhor do Bonfim / Feito uma canção

E aí? / Cadê o pessoal?
O índio tupi? / O hino nacional?
O voo do colibri? / Etcétera e tal…
Cadê o Cariri? / Cadê o Carnaval?

É um dia sim, é um dia não
É um dia sim, é um dia não

É o guaraná / É o metrô
Mas a festa, oh pá, / Não acabou
Salve Iemanjá / Oxum e Xangô
A flor do alecrim / Jamais murchou

É um dia sim, é um dia não
É o pé que dança o baião
É um dia sim, é um dia não
É a cara do furacão
É um dia sim, é um dia não
É o pé que dança o baião
É um dia sim, é um dia não
É a voz que canta com paixão

O Cais do Sodré / Fado maior
O samba no pé / O meu suor
Trabalho pra ter / Um mundo melhor
Que vai do Abaeté / A Montemor

Me sinto mais viva  Não sei porquê
Misturo a saliva | só com  você
E viro nativa | De um lugar… cadê?
Filha adoptiva | Do prazer
 

Letras de Tiago Torres da Silva

   

EL ÚLTIMO TREN

El último tren regional | va a salir de Chamartin
cerca de las três
el último viernes de Abril | el último “adíós, mi amor
yo no vuelvo más!”
el último paisaje gris en la oscuridad
ya sólo me habla de ti no puedo más!

la mas lejana estación | el último rincón del pueblo
donde yo nací
la última copa de ayer | la última canción que oí
y habla de amor
el último grafitti viene em mi dirección
ya sólo me habla de ti no puedo más!

son tacos, insultos y sueños
que van pasando por delante de mis ojos
y son deseos y cosas ocultas
miedo!, miedo!, miedo!
tacos, insultos y sueños
que van pasando por delante de mis ojos
y son deseos y cosas ocultas
miedo!, miedo!, soledad!

la última noche sin ti | la última desilusión
que yo enfrente
el último tango en Paris | mi soledad y mi placer
pasa en la tele
el último documental sobre Marilyn
ya sólo me habla de ti no puedo más!

 

 

Myspace - Júlio Pereira  |  Graffiti    Facebook - Julio Pereira  |  Projecto Graffiti   

 

 

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