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Existem
actualmente em Portugal continental cinco tipos de viola popular correspondentes
a outras tantas regiões, dos quais dois se encontram em plena vigência,
outro já completamente fora de uso e os dois últimos em vias de extinção.
São elas, a Viola Braguesa, a Viola Amarantina
(ou de dois corações), a Viola Toeira (ou
de Coimbra) , a Viola Beiroa (ou "bandurra")
e a Viola Campaniça (ou alentejana).
Todas estas violas portuguesas pertencem a um género musical exclusivamente
lúdico e festivo e integram o mesmo tipo fundamental - com a caixa de
ressonância composta de dois tampos chatos e quase paralelos, com cinta
de "enfranque" variável, formando dois bojos - comum a todos os cordofones
da família das "guitarras" espanholas e europeias,
a que pertencem.
Características
As violas
braguesas são construídas por uma indústria violeira
outrora localizada em Guimarães e Braga, onde a sua existência surge
documentada desde o séc. XVII. Actualmente, esta indústria apenas subsiste
nos arredores de Braga e do Porto, daí abastecendo o resto do País.
As madeiras mais usadas no fabrico da braguesa são
o pinho de Flandres para o tampo da frente - em exemplares mais modestos
utilizam-se o choupo ou a tília - e a nogueira para o fundo. Tampo e
fundo da viola são normalmente feitos em duas pranchas de madeira unindo-se
os veios simetricamente. As ilhargas são feitas em nogueira, o braço
em plátano, amieiro, tília ou castanho. A escala é normalmente de pau-preto
ou madeira escurecida, sendo ainda frequentes alguns cavaletes pintados
de preto.
As dimensões destas violas não são constantes, fabricando-se hoje maioritariamente
em dois tamanhos: um maior, para tocar em conjuntos com outros instrumentos
- nomeadamente o cavaquinho -, e outro mais pequeno, a "requinta", tocada
a solo ou acompanhando o canto. O formato maior mede cerca de 90 cm
de comprimento total; 45 cm de caixa, 22 de cabeça e 23 de braço e 50
cm da pestana ao cavalete, ou seja a parte vibrante das cordas. O formato
menor mede cerca de 77 cm de comprimento, com 25 na largura máxima e
42 da pestana ao cavalete.
Hoje em dia, a viola braguesa mais característica tem a abertura central
em forma de "boca de raia"; embora os modelos e representações
mais antigos mostrem apenas bocas redondas ou
ovais deitadas. As suas cinco ordens normais são de
cordas duplas em aço fino ou "arame", à excepção dos dois ou três bordões
- no passado eram usadas cordas de metal amarelo para as terceiras.
Encordoamento
É de cinco
ordens de cordas metálicas duplas. Possuindo hoje maioritariamente dez
cravelhas, alguns exemplares existem, porém, com as doze cravelhas de
madeira habituais nas antigas violas portuguesas setecentistas (cit.
Manuel da Paixão in Nova Arte da Viola - 1789). Em termos históricos,
não deverá excluir-se a possibilidade de as actuais violas braguesas
não terem realmente sofrido qualquer redução no seu número de cordas,
representando antes o prolongamento de um tipo anterior - já possivelmente
representado em Braga, cerca de 1789 - com carácter autónomo.
Afinações
A sua afinação varia de acordo com a região onde é tocada e o tipo musical
a que se destina. Assim sendo, o valor das notas não é absoluto, estabelecendo-se
este de acordo com a afinação dos demais instrumentos com os quais a
braguesa toca conjuntamente, e com as indicações específicas de cada
músico ou autor. Manuel da Paixão Ribeiro, por exemplo, aponta a afinação
(do agudo para o grave) mi-si-sol-ré-lá, também característica
da viola toeira de Coimbra e da guitarra espanhola dos sécs. XVI-XVII.
Michel Angelo Lambertini refere a de lá-mi-si-lá-ré.
Os violeiros actuais afinam a braguesa como a guitarra - ré-lá-si-mi-lá
-, suprimindo a sexta corda - afinação usada por Júlio Pereira baixando-lhes
1 tom - do-sol-lá-ré-sol. Para a requinta
indicam ré-sol-si-fá#-lá. Acompanhando o cavaquinho,
a viola braguesa afina como este na chamada "moda velha", seguindo um
tipo de afinação diferente quando tocada a solo.
Sendo
o mais importante e característico instrumento de cordas no acompanhamento
próprio das rusgas, chulas e desafios do noroeste do País, a viola braguesa
é tradicionalmente tocada sozinha, a solo ou acompanhando o canto, ou
ainda - mais frequentemente - ao lado do cavaquinho, violão, bandolim
e rabeca. Quase extinta nas restantes áreas geográficas do País, a viola
braguesa foi longamente olhada enquanto instrumento representativo de
um carácter regional figurado apenas nas alegres danças e nas canções
fluentes do norte português. Na actualidade, e desde meados da década
de 70, por influência de um movimento geral de recuperação dos elementos
tradicionais e nacionais mais significativos, a viola braguesa - a par
do cavaquinho e de outros instrumentos próprios à identidade portuguesa
- encontra-se em diversos novos grupos musicais urbanos representando
o exemplo vivo de uma antiga forma renovada.
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Braguesa
guitar
There are five types of popular
guitar in mainland Portugal - each one corresponding to a number of
geographical areas - from which two types are absolutely in force, the
another is completely in disuse and the last two groups are becoming
extinct: the braguesa guitar, the amarantina guitar (or of two hearts),
the toeira guitar (or Coimbra’s guitar), the beiroa guitar (or "bandurra")
and the campaniça (Alentejo’s guitar). Having a soundbox formed by two
almost paralell flat covers and two bulging parts, all these portuguese
instruments belong to an exclusively festive and playfull musical style
and integrate the same general group of the spanish and european guitars.
Characteristics
The braguesa’s
usual stringing has five sequences of double metal strings. Mostly having
ten bridges, some of its exemplars may adopt the traditional twelve
wood bridges seen on portuguese Seventeenth century guitars (as mentioned
by Manuel da Paixão in Nova Arte da Viola -1789). Another perspective
refers to the braguesa as an historical prolongation of an early and
independent type of guitars, eventually figured in Braga since 1789.
In the past, the construction industry of the braguesa guitar was centralized
in Guimarães and Braga since the Seventeenth century. Contemporarily,
this specialized activity mainly survives in the surroundings of Braga
and Oporto from where it supplies the remaining geographical regions
of Portugal. The most prefered woods are the Flanders pine wood to outline
the front cover - popular and lime wood are also used in modest instruments
- along with the walnut to the bottom. The cover and the bottom are
usually made of two planks with the wood veins symmetrically alligned.
The flanks are made of walnut, the neck of plane wood, alder, lime or
chestnut-tree wood. The scale is commonly made of black wood or dyed
wood, being also frequent the existence of black painted bridges.
These guitar’s dimensions are not completely constant and today’s braguesas
follow two main models: a bigger one is to be performed with other instruments
- namely the cavaquinho -, and the smaller one is called the "requinta",
is designed to be played solo or as a singing accompaniment. The first
guitar doesn’t exceed 99cm in lenght - 45 to the box, 22 to the head,
23 to the neck and 50 cm from the nut to the bridge, (the vibrating
part of the strings). The small format has nearly 77 cm; 25 in largest
width and 42 from the nut to the bridge.
Nowadays, the most typical braguesa guitar has a specific kind of sound
hole, though some ancient models and pictures only figure round or oval
bent ones.
Strings
/ Tunning
Its five string
double orders are in metal. The braguesa’s tune changes according to
the regions and to the different music styles. Consequently, the pitches
values are not absolutely constant, so that it can be changed in order
to accompany other instrument’s tunes in ensembles or some authors specific
directions. Manuel da Paixão Ribeiro, for instance, refers to the tune
- from higher to lower pitches - E- B - G - D
- A also characteristic of the Coimbra’s toeira guitar and of
the XVIth-XVIIth centuries spanish guitar. Michel Angelo Lambertini
mentions the tune
A - E - B - A - D. Present players follow
the scheme D - A - B - E - A, supressing
the sixth string and choosing the "requinta" D
- G - B - F# - A. As accompaniment to the cavaquinho, the braguesa
guitar follows its tune by the so called "moda velha" and when played
solo, it has a specific pattern.
Being the most important and characteristic string instrument of northwestern
Portugal’s "rusgas", "chulas" and "desafios", the braguesa guitar is
traditionally performed alone - solo and as accompaniment to singing
repertory - or, frequentely, side by side with the cavaquinho, "violão",
"mandolin" and "rabeca".
Almost extinguished in the
rest of the areas of the country, the braguesa guitar was seen as the
most representative regional instrument of a specific musical character
figured only on the joyfull dances and fluent songs of northern portuguese.
Now and since the middle of the 70’s a revival stream was produced in
order to achieve a major spread of some of the most significant traditional
and national elements. Nowadays, the braguesa guitar - along with the
cavaquinho and many other typical elements of the portuguese identity
- is easily found in several young urban musical groups being a lively
example of a renewed ancient form.
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